segunda-feira, 12 de março de 2012

dona maria, a flor nasceu em você


o silencio do altar me apavora
eu quero a gritaria da nossa alegria!

e que seja feita a nossa vontade agora!
que deserde o bitolado pela nossa euforia!

Oh, dona maria
és tu livre a partir desse instante
goze e a liberdade sem medo quero que cante!

quero eu e queres tu
tu estás liberta e teu coração estás nu!

amo a mim e amo a você
e sob tutela do infinito amor ninguém poderá nos prender!

ninguém, dona maria
a cruz caiu, o costume castrado!
a nova paixão fez do pecado abortado!

abortado, o pecado abortado
libertado, teu ovário libertado

dona maria
essa tua maravilhosa boa nova
floresceu do seu útero!
e de lírico pequeno-pouco,
tua audácia fez uma grandiosa prosa!

domingo, 11 de março de 2012

eu leio, morro e amo a vida


vou morrer, por isso escrevo
por isso me escrevo
para eu continuar vivo
vivo!

beijos, eu te amo quem me lê!
sem você
isso não teria sentido
sem eu
isso não estaria escrito

nem vivido
nem agonizado
nem amado
nem sofrido!

eles nos dão; nos damos a eles


eles nos dão nós
feitos somos dados a nós mesmos
e nós honramos a vós
a dura batalha que vivemos

eles nos dão, às nossas crianças

a vida para viver a dor
a fome para sentir no chão
o frio e para ter calor
a cola como seu colchão

eles nos dão, às nossas crianças

o futuro num maço de cigarro
o destino soprado num trago
no papel de 10, 10 reais do descaso
e como oferenda o assassinato

eles nos assassinam, às nossas crianças

a vida antes dela ser
o sorriso do amanhecer
a esperança, que trajava natural
a alegria, que deveria ser normal

mas eles nos dão, às nossas crianças

o sentir fome, o ódio
o sentir frio, o ódio
perder o nome, a vingança
o sentir vazio, a vingança

o ódio e a vingança, a morte
o deus morto no altar, a morte
o sorriso inquieto, o brado
na mesa de jantar, o alvo

eles nos dão, às nossas crianças

o alvo aqueles que vos sustentam
que se emocionam em romances
que se aprisionam das tormentas
nos jantares inquietantes

eles nos dão, ao nosso destino

aliás eles nos dão, o nosso destino
e ao destino, impõe nossa rotina
que nos tranca e faz-nos sentir receio
de nós, que engordamos nosso medo

eles nos dão, portanto, o medo

assim como nos dão a pátria
assim como nos dão a segurança
a nós por nós armados, reforçada
assim como nos estupram propagandas

eles nos estupram a cabeça

nos dão escolas com seus métodos
nos dão o curso do vazio puro
nos afogam na inércia de seus processos
transformam a luz num salão escuro

eles nos dão o escuro, quando podemos ter luz
eles atacam o cógnito, para que o néscio se reproduz

eles alvejam quem ousa, pois quem ousa pensa
portanto criam hospícios, televisões e cadeias

eles sabem, e têm medo dos livros
eles sabem o valor de seu perigo

eles têm armas e as dispõe à nós
nós temos cabeças, e dispomos a vós

somos nós, os demônios que nos perseguem
somos os bandidos, as polícias e os hereges
os pecadores da moral que nos impuseram
os loucos engasagados por seus remédios

a inserção de vossa matéria
bem ensinada na escola da vida
determina a nossa miséria
nosso sofrer, nossa batina

determinemos, pois
nosso próprio dia
nossa própria noite
nossa própria vida

ataquemos, então
aquilo que nos ataca
não conheçamos o perdão
enfiemos, a faca
em vosso peito, no coração

pra fazer cessar, enfim
esse eu contra você
você contra mim

essa batalha,
travada por nós,
por nós contra nós

pra fazer nascer, de uma vez por todas
a nossa vida, por nós orientada
a antiga ilusão cantada por aquela louca
que por nossa utopia foi fecundada

terça-feira, 6 de março de 2012

cirrus minor gc

..ou então aceitemos também!
somos lindos e é isso aí meu amor
o mundo gira em torno dele
o mundo gira em torno do sol
mas ele está sob nossos pés
ele é grandioso, meu amor
mas somos infinitamente grandiosos também!

e o sol...
o sol nos arde a pele
nos mata o frio
e nos faz dele uma representação
de alegria e vida!
Ele nos faz! A nós, ele nos faz!

Você sabe o que você é, meu amor?
e eu sei o que eu sou?
será que devemos saber?
ou devemos procurar saber?
se só o fato de sermos
e lindo sermos
já basta!

A grandeza se dá pela vida
a vida nos atribui a grandeza divina
estamos vivos, amor!

estou vivo de você
o que respiro é o seu ar
o que me machuca é sua mordida
mas não leve a mal, meu bem
esse machucar é como o sol para as flores do meu jardim
é como a bebida ao entediado
é como o poder ao obcecado
é como a tua mordida a mim

meu amor, somos lindos! esbravejo-me novamente!
meu amor, devemos nos exaltar
quem se ama se delicia
quem se delicia delicia quem se ama
e quem se ama ama quem se delicia
que nos amemos
que nos deliciemos!

já que falei em delícias...
a juventude é de fato uma delícia!
a nossa juventude é eterna
ela não nos frige
ela nos responde

"olhem, crianças
como eu posso lhes apresentar
sob uma forma extraordinária
que caibam quaisquer objeções
frases, aspirações, reivindicações;

olhem, crianças
como posso lhes apresentar
a vida!

olhem, meus amores,
como eu posso lhes fazer ávidos
para suscitarem seus prazeres
e para verem a vida cheia de cores
ou até cheia de dores
mas aquelas dores juvenis
que até fazem bem!,

crianças, sou a juventude
amem-se!
pois, em meu reinado
a lei sou eu;
e, em meu reinado
vocês fazem a lei!

crianças,
em meu reinado,
vocês me fazem,
me vivem!
"

ah, meu amor
somos jovens!
perfeitos por sermos a natureza
perfeitos por sabemos que a somos!

as imperfeições só cabem na nossa limitação à esfera que sustenta imperfeições!

Por que não sermos perfeitos?
Devemos ser ousados!

Meu amor, aceitemos, também!
Aliás, amor, compreendamos!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Carry that weight a long time

Qual seria o trauma daquele tigre que tem seu orgulho felino - ou sua própria alma - destroçado? ou, melhor, quais seriam os motivos para esse ou esses traumas? uma hiena que se aproxima num dia ensolarado, quentíssimo, nos interiores das matas africanas, uma hiena que neste sol escaldante tremula seus olhos pelo ardor do calor de nossa estrela, que o seduz e não o apresenta o mínimo de ameaça, noutras noites se transforma num volumoso bicho estranho, atormentador, medonho, que é capaz de, com sua ironia e posição nas coisas da vida, fazer os caninos do bichano se destroçarem pela força de seu maxilar, força que é resultado das dores das cáries dos caninos do orgulho e da mente do animal... 

Sabe-se que o canino é um dos pontos de maior concentração de força num animal carnívoro e sobretudo selvagem. É o canino que devora aquilo que lhe não é de bom agrado; é o canino que se dispõe como a proteção e o poderio ofensivo do bicho; pode-se dizer então que é o canino a morada de sua estabilidade vital e, mesmo que não seja por tempos integrais, nalguns vários momentos é imprescindível sua existência. O que seria, então, dum tigre com seu canino destroçado? E mais, o canino de suas objeções, da áurea de seus pensamentos, seu canino emocional; o que seria dum tigre com esses caninos assolados por uma cárie destrutiva?

São perguntas que o tigre, caso pudesse se dispor de análises como nós humanos podemos, deveria fazer-te imprescindivelmente. Surge mais uma pergunta: qual foi o descuido do tigre para esses ataques impetuosos da cárie em seu sustentáculo emocional? A fragilidade de seu coração poderia de alguma forma influenciar essa doença crônica em seus caninos? Por que, tigre, não começa-te a te responder? Uma cárie, tigre, surge com o tempo, se desenvolve com o tempo e, por isso, quando ataca, permanece-se nessa condição, ela ataca com o desenrolar dum tempo. E é justamente aí que vem tua dor mais irascível, a dor que você sente num desenrolar muito grande do tempo e que, às vezes, sufocando-te, parece não ter fim, não ter cura, parece a ti que firmou-se não uma cárie, mas um câncer em seu fígado, que lhe agoniza e lhe faz retrair mais e mais para ti mesmo, o que te faz ter medo duma inofensiva hiena numa noite nebulosa naquelas savanas da áfrica...

Voltando à hiena, tigre, talvez não foram outras hienas pela tua vida que lhe meteram boca-da-tua-mente a dentro a cárie nos caninos-de-tua-mente? Tigre, responda e conheça-te; podes definhar, é inevitável, mas conheça-te para conhecer o que lhe fere, o que lhe fez ferir e que, apesar dos devaneios e desacertos da vida felina, reconhecer que você é um tigre. E, tigre, por ser um tigre já sabemos que teu orgulho é capaz de fazer brilhar todo o oceano pacífico, dar luz à noite e fogo à lua; imagino, tigre, como deve estar você agora, com essa coisa que chama orgulho, que tens e que estás sumariamente abalado.

Teu orgulho vens sendo abalado, tigre, reparei, e sei que é por isso que não te assume a cárie. Mas sou seu amigo fiel, assumo-a por ti e me disponho a tratá-la... Tigre, não chores, você está exposto às seus semelhantes, mas chore quando sozinho; chore, desanuvie, as lágrimas do seu choro poderão ser a cura de tua enfermidade, poderão fazê-la mole quando em contato corrente e assim fragilizando aquilo que tanto lhe fragiliza. Mas não espere somente de suas lágrimas; se for necessário, também, quebre seus caninos de fato com aquela força que lhe atentei no começo de minha fala, meu grande amigo.

Extrapole a dor dos seus caninos-de-tua-mente nos seus caninos de cálcio de tua boca, ruja tuas dores, encare-as de frente, mesmo que contraia-te a ti mesmo... Das respostas, Tigre, não as exponho por orgulho, você sabe... você sabe do orgulho e das respostas... Tigre, saibas de uma coisa: essa hiena não lhe atormenta como seus olhos apresentam a ti; assim como existem os caninos-de-tua-mente, existe o devorar-de-outro-modo: devore-a-de-outro-modo.

Escute, Tigre, escute essa música... digo-lhe que ela me faz chorar... E chore também, chore, pois depois de toda tormenta nos céus carregados, cinzentos e escuros, existe o sol, o azul e o infinito, meu amigo tigre...



Boy, you're gonna carry that weight
Carry that weight a long time
Boy, you're gonna carry that weight
Carry that weight a long time

I never give you my pillow
I only send you my invitations
And in the middle of the celebrations
I break down

Boy, you're gonna carry that weight
Carry that weight a long time
Boy, you're gonna carry that weight
Carry that weight a long time

Garoto, você ira carregar esse peso
Carregar esse peso por um longo tempo.
Garoto, você ira carregar esse peso
Carregar esse peso por um longo tempo.

Eu nunca te dei meu travesseiro
Eu apenas lhe enviei meu convite
E no meio das celebrações
Eu desabei.

Garoto, você ira carregar esse peso
Carregar esse peso por um longo tempo.
Garoto, você ira carregar esse peso
Carregar esse peso por um longo tempo.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

mordida


eu quero os suspiros que por tanto nos perseguem
eu quero a sua mordida, que aprendi a querer-mais
eu quero ser o caim da lilith do pós-eden
do pecado pelo pecado, ao que nosso corpo satisfaz

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ao zé ninguém, com carinho de w. reich


Não entendes porque é assim, porque não pode ser doutra maneira? Eu digo-te, Zé Ninguém, porque eu aprendi a ver-te como o animal rígido que me trazia no seu vazio, na sua impotência, na sua doença mental. Só sabes sorver e apanhar, não sabes criar ou dar, porque a atitude básica do teu corpo é a retenção e o despeito; porque entras em pânico de cada vez que sentes os impulsos primordiais do AMOR e da DÁDIVA. É, por isso que tens medo de dar. A tua permanente avidez só tem um significado: és continuamente forçado a encher-te de dinheiro, de satisfações, de conhecimento, porque te sentes vazio, esfomeado, infeliz, ignorante e temendo a sabedoria. É, por isso que foges da verdade, Zé Ninguém – ela poderia fazer-te amar. Saberias então o que tento, inadequadamente, dizer-te. E isso tu não queres, Zé Ninguém. Só queres que te deixem em paz como consumidor e patriota.

“Ouçam isto! Este tipo nega o patriotismo, a base do Estado e do seu órgão fundamental, a família! Isto não pode ficar assim!”

É assim que gritas “aqui-d'el-rei” quando alguém te denuncia a prisão de ventre mental. Não queres nem ouvir nem saber, queres berrar “vivas”. Mas porque não me deixas dizer-te por que razão és incapaz de alegria? Vejo-te o susto nos olhos - sente-se até que ponto o assunto te afeta profundamente. A “questão religiosa”, por exemplo. Afirmas defender a “tolerância religiosa”; afirmas o teu direito à liberdade em matéria religiosa. Perfeito. Mas queres mais: queres que a tua religião seja a única. És intolerante quanto às outras. Ficas desesperado quando encontras alguém que, em vez de um Deus pessoal, adora a natureza e procura entendê-la. Preferes que os cônjuges em vias de separação se processem judicialmente, se acusem de imoralidade ou de brutalidade quando já não lhes é possível viver juntos. Tu, que és descendente de homens rebeldes, és incapaz de reconhecer o divórcio por mútuo consentimento - porque a tua própria obscenidade te assusta. Queres a verdade num espelho, algures onde não possas chegar-lhe. O teu “chauvinismo” decorre naturalmente da tua rigidez, da tua prisão de ventre mental, Zé Ninguém. E não o digo com sarcasmo, porque te estimo, embora seja teu hábito esmagar os que te estimam e dizem a verdade.

Repara, por exemplo, nos teus patriotas: não andam, marcham. Nem odeiam o inimigo – o que acontece é que têm “inimigos hereditários” que de dez em dez anos passam à categoria de amigos hereditários, e vice-versa. Não cantam – berram hinos marciais. Não fazem amor – “comem-nas” e têm um curriculum de “fudidas”, por noite. Estas são as verdades que tenho para dizer-te, Zé Ninguém, e contra as quais nada tens a opor, exceto o assassínio, o mesmo que perpetraste contra tantos outros homens que te estimavam: Jesus, Rathenau, Karl Liebknecht, Lincoln e muitos outros. Na Alemanha costumavas chamar-lhe “depuração”. A longo prazo foste tu que foste “depurado” aos milhões – mas continuas a ser um patriota.

Desejas amar e ser amado, amas o teu trabalho e é dele que vives, e a base do teu trabalho é o meu conhecimento e o de outros. O amor, o trabalho e o conhecimento não têm pátria, não conhecem fronteiras nem uniformes. São internacionais, são o patrimônio da humanidade. Só que tu preferes o teu patriotismo medíocre porque tens medo do amor genuíno, do trabalho responsável, medo do conhecimento. E por isso exploras o amor, o trabalho e o conhecimento dos outros, mas nunca poderás criar. Por isso usas a tua alegria como um ladrão furtivo, por isso não consegues suportar sem azedume e inveja a felicidade dos outros.